Entendendo as vacinas

Por Maria Birman Cavalcanti

Eu escrevi esse texto outro dia para uma mulher que estava “indecisa” sobre vacinar o filho:

Primeiro quero desfazer algo que pode ter ficado mal entendido, eu não sou imunologista, não cursei Imunologia como faculdade, nem sou médica, reumatologista ou alergista. Minha formação é em nutrição, onde no ciclo básico temos disciplinas de imunologia, microbiologia e farmacologia, e o conhecimento teórico acumulado ao longo dessas disciplinas me possibilitou entender melhor o mundo da imunização. Eu sou apaixonada pela área, que é extremamente rica e complexa, mas não é onde eu atuo profissionalmente.

Eu entendo e compactuo com o receio de aceitar intervenções médicas nos nossos corpos e nos corpos dos nossos filhos sem compreendê-las completamente. Quanto mais a gente se envolve com a própria saúde mais a gente descobre o quanto a medicina ocidental é muito mais complexa e cheia de incertezas do que os médicos querem fazer parecer. Está claro, com as revisões sistemáticas e meta-análises que temos disponíveis hoje, que algumas intervenções médicas são baseadas em tradição, não em ciência, e atrapalham mais do que ajudam. Junte a isso um contigente de médicos mal formados, despreparados, que muitas vezes não sabem exatamente o que estão fazendo mas carregam toda a arrogância da profissão… fica difícil confiar. Eu entendo de verdade porque eu penso assim, eu sempre pesquiso “por conta” o que posso antes de intervir em qualquer processo, fisiológico ou patológico, que esteja acontecendo no meu corpo ou no do meu filho. Sei que muitas pessoas que tem acesso à informação mais “contra-hegemônica” têm a mesma preocupação, e tentam entender o risco/benefício das intervenções prescritas antes de aceita-las passivamente. A questão principal aqui é justamente discernir quais fontes de conhecimento são ou não são confiáveis, é entender onde devemos buscar informações. Isso não é fácil, até porque essa não é nunca uma avaliação apenas objetiva – na escolha das fontes pesa a subjetividade individual, a religião, as crenças, as experiências anteriores com a medicina tradicional ou alternativa, a formação ao longo de toda a vida e outras escolhas de cunho filosófico. Nesse sentido não importa a quantidade de “evidências” que de reúna, algumas pessoas jamais serão convencidas de uma coisa ou outra.

Entender como funciona a vacinação é uma demanda de muita gente, embora o princípio simplificado seja bem conhecido: apresentar uma versão mais fraca de um agente patogênico para que o corpo reaja e a pessoa adquira imunidade à versão “força total” presente de na natureza. As vacinas são compostas basicamente de quatro componentes: um meio (geralmente aquoso), um adjuvante (uma substância cujo objetivo é gerar uma pequena reação inflamatória para “chamar” o sistema imunológico para o local), o (ou os) antígeno(s) (que pode ser o agente patogênico vivo atenuado, pode ser o agente patogênico morto, ou pode ser um fragmento apenas, uma proteína ou um polissacarídeo, ou até só material genético) e conservantes para garantir que essa mistura não vai se contaminar com outros microrganismos. A vacinação expõe o corpo de maneira controlada ao mesmo evento que ele encontraria na natureza, e induz o nosso sistema imunológico a produzir memória (anticorpos, ou imunoglobulinas, específicas para aquela doença). É importante dizer aqui que muitas das doenças previníveis por vacina não são possíveis de evitar de outras formas. Não basta comer bem e tomar sol e viver em lugares arejados para evitar o sarampo, ou o tétano, ou uma infecção por Haemofilus influenza B, ou por Nisseria meningitidis. São agentes patogênicos que podem debilitar ou matar mesmo pessoas fortes e saudáveis, e que se espalham rapidamente – são responsáveis por surtos e epidemias. A imunidade conferida pelas vacinas é ativa, tão completa quanto a imunidade adquirida depois de realmente ficar doente e se recuperar.

Passar desse nível de compreensão exige, necessariamente, um conhecimento de imunologia que não é trivial. São dezenas de células e centenas ou milhares de substâncias envolvidas em uma série extremamente complexa de reações químicas.

Quais são os riscos percebidos X riscos reais da vacinação? A cobertura vacinal é muito alta, e o número de reações adversas muito baixo. Eu trouxe alguns estudos, a maioria publicados em revistas da e epidemiologia e saúde pública, conduzidos por profissionais ligados a universidades e ao SUS (portanto não tem quase nada nessa seleção financiado pela indústria farmacêutica). A maioria dos links é para o resumo (abstract) mas alguns que eu achei especialmente importantes linkei o artigo completo: 

  • Relatório da Organização Mundial de Saúde sobre vacinação e imunização em 2017: Clique aqui.
  •  Artigo muito bom e completo sobre reações adversas durante um ano em Minas Gerais, com todo o calendário: Clique aqui.
  •  Impacto da vacinação contra rotavírus no total de internações por diarreia em Auckland (local com ótimas condições sanitárias): Clique aqui.
  •  Impacto da vacinação contra rotavírus no Brasil: Clique aqui.
 Cinco estudos sobre o impacto da implantação da vacina pneumo10 no calendário do SUS sobre diferentes doenças:
  • Estudos sobre o impacto da vacina meningoC: Clique aqui.
  •  Óbitos e hospitalizações relacionados ao vírus da catapora antes da introdução da vacina tetravalente (hoje em dia é penta) no esquema básico coberto pelo SUS: Clique aqui.
  •  Segurança da vacinação para catapora: Clique aqui.
  •  Estudo dos eventos adversos após vacinação contra gripe em crianças (sorotipo de 2009, é diferente a cada ano): Clique aqui.
  •  Eficiência e eficácia da vacina triplice viral:  Clique aqui.
  • Segurança e eficácia de duas vacinas para hepatite B, uma com thiomersal e outra sem:  Clique aqui.
  •  “A (não) vacinação infantil entre a cultura e a lei: os significados atribuídos por casais de camadas médias de São Paulo, Brasil”.  Clique aqui.
 Juntando tudo isso eu, pessoalmente, chego às conclusões que:
1) o impacto da vacinação sobre a saúde é positivo,
2) as reações são raras, e
3) que a grande maioria das reações são muito leves e locais.

Se a gente for deixar de fazer as coisas por medo de ser a exceção à regra nunca vamos entrar num carro com medo de acidente, nunca vamos comer na rua com medo de intoxicação, etc…

Sobre metais pesados: isso é muito relevante, porque é uma dúvida de muita gente e é um dos assuntos sobre os quais existe mais desinformação. Há dois “metais pesados” que estão presentes em ALGUMAS vacinas (e não todas!) alumínio, na forma de hidróxido de alumínio, que funciona como adjuvante em algumas vacinas (um exemplo é a pentavalente, que costuma causar reação local na forma de dor e inchaço com bastante frequência) e mercúrio na forma de thiomersal/timerosal, que é um conservante usado vacinas multidose (como a vacina da gripe).

Algo que a gente escuta muito é que o metal pesado entra no nosso corpo e se acumula, não sai nunca mais. Não é bem assim. Ainda que exista o fenômeno da bioacumulação, ele ocorre em casos de exposição crônica. Após exposição pontual ao alumínio ele é eliminado do nosso corpo pelos rins, através da urina. O hidróxido de alumínio é um adjuvante, um corpo estranho que causa uma pequena reação inflamatória local, o que chama as células do sistema imunológico para a região onde foram introduzidas vacinas com componentes que não tem “imunogenicidade” própria, isso é, quando nosso corpo não reconhece aquele vírus morto ou aquele pedaço de DNA como uma ameaça. Se não fosse o adjuvante o sistema imune nunca entraria em contato com o antígeno, e nós não produziríamos anticorpos. É a imunidade inata (inespecífica) que apresenta o antígeno para as células que são capazes de criar memória (imunidade adaptativa). Sem o hidróxido de alumínio ou outro componente similar a vacina seria inútil. E a quantidade de alumínio na vacina não apresenta risco. Aqui tem um artigo bem completo sobre os riscos da exposição tóxica ao alumínio: Clique aqui.

 O timerosal, usado como conservante, é seguro na dose que é usado. A dose é tão baixa que todas as vacinas que uma pessoa toma na vida, juntas, somadas, significam uma fração da dose de mercúrio de um machucado aberto que foi tratado com merthiolate (sujo principio ativo era o próprio timerosal) ou mercuriocromo – os antissépticos contendo mercúrio foram tirados do mercado brasileiro por precaução, pois existem alternativas consideradas mais seguras. Entretanto é importante lembrar que por muito tempo esses medicamentos foram opções importantíssimas de tratamento (matar bactérias e fungos oportunistas em uma feriada é muitas vezes necessário, e a descoberta da assepsia e dos antissépticos mudou completamente a recuperação das pessoas após ferimentos) e que seus efeitos deletérios sobre a saúde não estão comprovados, e eles continuam sendo comercializado em vários países. Sobre o timerosal tem essa Q&A no site da OMS:  Clique aqui.

Texto extraído dos arquivos da Pediatria Radical no Facebook.

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