O papel social do pediatra

O pediatra hoje é solicitado a participar da vida comunitária, na prevenção de agravos à saúde da criança e do adolescente. O governo entra com o SUS e as vacinações. Ao pediatra cabe identificar situações de risco social, desnutrição e violência doméstica. Quando a mãe procura a Unidade Básica de Saúde, ela deve encontrar ambiente preparado para atender às suas demandas e incentivo/ajuda com esclarecimento afetuoso para o aleitamento materno, desde o pré-natal. É este o grande papel do pediatra e do enfermeiro pediátrico, seja em consultas, seja em eventos comunitários – acolher e aconselhar:

• Incentivar o aleitamento materno;

• Dissipar dúvidas quanto à importância do leite materno e as lendas do “leite fraco” e da “necessidade de complemento”;

• Estimular a mãe ao aleitamento materno exclusivo até os seis meses, pelo menos.

Se a Unidade Básica de Saúde cumprir esse papel, a manutenção da saúde maternoinfantil estará assegurada. Para isso, todo o pessoal que trabalha nos postos deve receber treinamento, para que não haja falhas nem delongas, e para que se sintam motivados a melhorar o quadro que ali se apresenta.

Não bastam cartazes: a campanha deve ser constante, persuasiva, amistosa e permanente, desde a recepção até a finalização da visita. A mãe precisa ser ouvida em suas dificuldades quanto à pega correta e sobre o melhor estímulo à produção do leite materno: a sucção e mamada em livre demanda.

O incentivo e a informação devem atingir todo o pessoal auxiliar, a começar da recepção e da limpeza. Muitas vezes, o desmame é causado por um olhar de deboche ou pela hostilidade no atendimento.

Pediatria no posto de saúde: cuidar e curar

Em comunidades carentes, o exercício solitário da pediatria não altera os indicadores de saúde. Também não se modifica o meio sem a educação dos participantes, viciados que estamos (nós e a população) nos mesmos padrões, em “exames de rotina” e fornecimento de remédios, quantas vezes inócuos e até prejudiciais, sem atendimento a suas verdadeiras demandas. As quais estão relacionadas ao universo das necessidades existenciais e seus percalços: carência alimentar e afetiva, fadiga, violência doméstica, falta de horizonte, desemprego, desconforto material.

As situações de risco social incluem, também: baixo peso ao nascer, gravidez na adolescência, desmame precoce, desnutrição infantil, deficiências específicas de ferro e vitamina A e D, obesidade, esgoto a céu aberto, acúmulo de lixo; e as sequelas da violência e abuso contra a criança. Muitas dessas situações dependem de políticas públicas, que envolvem o posto de saúde, as escolas e a comunidade. Ou seja, as medidas têm que ser coletivas. Unidade Básica de Saúde é um espaço de conveniência, onde as crianças poderiam assimilar noções básicas de higiene; participar de vivências sociais, educativas e lúdicas; e ser acolhida, para diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças. Lugar de passagem comum das crianças, no contexto de nossa realidade, com situações dramáticas precocemente vividas, condenadas que estão ao submundo da exclusão social.

Como a população não tem acesso direto às ‘autoridades competentes’, seu primeiro e quase único interlocutor é o posto de saúde. É para lá que ela leva suas angústias, é de lá que ela espera alguma solução ou resposta. Para o pediatra baiano, Dr. Arcleide, só uma ação conjunta pode fazer surtir efeito em comunidades em situação de risco social: “Atuar em ambiente de agrupamento de crianças e adolescentes por proximidades geográficas, faixas etárias, em estrutura cívica, com equipe multidisciplinar constituída por médicos, enfermeiras, assistentes sociais e odontólogos, dando assistência, cobertura e prevenindo, vacinando, diagnosticando ou tratando cáries dentárias, verminoses, doenças infectocontagiosas, doenças da pele, deficiências neuropsíquicas; avaliar o crescimento e desenvolvimento, e fazer a triagem de defeitos congênitos, promovendo a integração da educação com a saúde, objetivando o resgate da qualidade de vida de gerações emergentes, em ambiente ecologicamente equilibrado”.

O verdadeiro “produto” que reduziu a mortalidade infantil não recebe muito destaque, pois é gratuito e só depende da boa vontade e perseverança das mães: o leite materno. Durante anos e anos, as mães foram mantidas na ilusão de que o leite em pó era superior ao seu próprio leite. O profícuo alvo “mamãe-e-bebê” não mais saiu do foco da indústria de mamadeiras, chupetas e leites em pó. O Posto de Saúde/UBS tem um papel fundamental em inverter essa situação.

O cuidado à criança depende do governo, da família e da sociedade:

CUIDAR DA CRIANÇA É DEVER DE TODOS!

por Dra. Relva

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