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Criança, essa indesejada...

Atualizado: Jun 16




Será a criança um ser à parte, estranho ao homem, algo inferior e mutilado algo primário, fabricado na persuasão de que a imitação da infância é a própria infância?” / C. D. Andrade.

Graciliano Ramos, em Infância, conta o quanto apanhava: ‘Eu devia ter quatro

ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. [...] Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural... Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa, que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados em água com sal – e houve uma discussão na família’.

As cantigas de ninar são cheias de maus presságios e ameaças à vida e integridade de meninos e meninas: abandono na floresta, lobos ameaçadores, cuca que vai pegar. A história da criança é de pura violência; os adultos são

maiores, mais fortes e a criança é a eles subordinada, seja como escrava, criada ou inferior, sem voz própria. Na antiguidade, eram objeto de sacrifício, ou abandonadas. Na idade média, podiam ser doadas a igrejas, que dispunham de ‘rodas dos enjeitados’. Ainda hoje, são largadas em latas de lixo ou esquecidas na porta de alguém. Ou recolhidas a orfanatos.

Pelo século XIX/XX, começaram a surgir pedagogos que procuravam compreender e acolher a criança em seu processo de crescimento e

desenvolvimento, com destaque para Maria Montessori, que nos considerava

‘herdeiros da criança, que traz do nada os fundamentos da nossa vida’. Para

ela, deveríamos beijar a mãozinha que se estende para conhecer os objetos.

Mas os adultos batem nessa mãozinha estendida e a reprimem.

O trabalho infantil é penoso e extenuante: seja em carvoarias, em olarias,

quebrando castanhas ou servindo de criadas, sem direitos e sem trégua. Ela

não é, nem nunca foi - considerada objeto de direitos, mas de desprezo e

violência. Quantas fazem parte de grupos marginalizados, amortecidas pelo

trabalho precoce, pelo abuso sexual, pela subalimentação e escolas precárias

– onde pagam o pesado tributo de sua precária existência.

A escola, desde muito cedo, confina-a em salas fechadas, aonde chegam com

sono e saudosas do lar. A exuberante natureza lhe é vedada e seu corpinho

constrangido à imobilidade das carteiras, enquanto a imaginação e as brincadeiras são cerceadas pelos métodos pedagógicos. Sua fértil imaginação é posta a ferros e sua mobilidade natural passa a ser considerada como doença – para a qual existe tratamento medicamentoso.

A sociedade tem medo de demonstrar ternura à criança após os primeiros

meses. Tão logo ela comece a se interessar pelo mundo – para aprender – começa a apanhar na mão, na cabeça, no corpo todo. Bater é exercício obsoleto de poder sobre mulheres e crianças, deixando como ‘ensinamento’ a vontade de sumir de casa. Bater é covardia pela desproporção de forças. Por que o adulto não bate em alguém de seu tamanho? Por que não usa a ‘palmada pedagógica’ em quem ocupa sua vaga, ou não lhe paga o que deve ou comete alguma injúria contra ele, adulto?


Há grande confusão sobre o que é pátrio poder, agora chamado ‘poder familiar’: pais não são proprietários dos filhos, mas guardiões de sua vida e de

sua integridade corporal e moral. Quando se aceita ter ou adotar um filho, é

com a promessa implícita de que é bem-vindo a este mundo e de que viver

vale a pena.

Bater tanto não educa que a presente geração de adultos foi ‘’educada’’ dentro desse princípio e, no entanto, o mundo globalizado que aí está é corrupto e

violento. Por que o mundo é cada vez mais dominado pela banalidade do mal?


A criança é a vítima perfeita de um crime perfeito: é incapaz de revidar. O ato

não tem testemunhas, não é denunciado e conta com apoio da sociedade.

Fazendo analogia com o texto de Freud - “Bate-se em uma criança” - há o agente (pai, mãe, professor) a criança que recebe as pancadas e aquele que se delicia com a cena e até a incentiva (um parente, um passante, a sociedade).


A palmada chega a ser um reflexo condicionado na família. Frequentemente, é a ponta de um terrível iceberg, que inclui tapas, beliscões, queimaduras por cigarro, óleo, ferro quente, arrancamento de couro cabeludo, fraturas, morte. A

criança é um ser ávido de aprender e para isso busca os objetos que, para ela,

não têm valor financeiro, e são essenciais a seu aprendizado. Mas não se tolera que pegue os objetos em casa, ou que esbarre numa prateleira de supermercado ou que fique estressada pelo excesso de estímulos nos shoppings. Em vez de retirar a criança da cena do ‘crime’, bate-se nela. Bate-se por não se aceitar que ela viva em outro compasso e que não é um adulto em miniatura.

A OAB-SP declarou em programa de TV que os segmentos mais resistentes

em cumprir o Estatuto da Criança e do Adolescente são os da língua do P:

Pais, Pastores, Policiais e Professores . Aos seres de menor idade atribui-se

todo o mal existente no mundo que – na prática – é regido por adultos. Adultos

que, desnorteados com a perda de referências, com o desemprego, as aflições,

a insegurança, o medo - descontam seu mal estar na criança.

A criança é uma pessoa e como tal tem direito à vida e à integridade. Ela confia cegamente no adulto e, no entanto, pais e cuidadores exorbitam de suas

funções e a agridem física e moralmente. Sempre me perguntei: por que se bate numa criança? Acabei encontrando várias respostas em Freud, Winnicott e outros.. A melhor explicação é a de Ezio Flavio Bazzo, professor de psicologia da UnB:

A prova mais evidente de que a vida não passa de um ciclo ordinário está no fato de vermos nos nossos filhos tudo aquilo que passamos a vida inteira combatendo em nós.

Não podendo com nosso próprio descalabro, batemos no filho que nos espelha. A criança encontra-se no polo da máxima vitalidade, não sujeita às doenças dos adultos. Porém, ah, porém! Em vez de tornar-se a ‘criança mágica e feliz’, é classificada, pesada, medida e enquadrada em formas, índices e normas.

Suas entranhas são vasculhadas e ela é submetida a exames e testes continuamente. Vez ou outra, um respiro, um sopro de ar fresco. O HCSP criou

o “Diagnóstico Amigo da Criança”, de modo a reduzir a coleta de exames,

radiografias e tomografias nos pequenos pacientes.

O movimento ‘childfree’ parece contemporâneo, só que não. A humanidade

sempre repeliu e maltratou a criança. A história é prenhe de relatos de filicídios,

de castigos horrendos, de sacrifícios de crianças aos deuses. Medeia sempre

existiu, na forma de pais, mães, avós, tios, professores. A jornalista Cida Barbosa foi incisiva e brilhante em sua matéria sobre a violência contra a criança. Que começa com os pais, seus primeiros torturadores.

Na mesma semana, mãe espancou filho em piscina de clube e foi incentivada;

pai vingativo jogou o carro contra outro veículo, matando-se e matando o filho;

criança ucraniana de oito anos se lançou do alto de um prédio para escapar da

violência de seus pais. Sem falar em diversos casos de tortura explícita, como

a mãe que queimou as mãos do filhinho com uma colher aquecida ao rubro;

outra que colocou ovo quente dentro da boca da filha. Outra que sentou criança

pequena em formigueiro, sem fralda. Jornais trazem essas pesadas notícias

diariamente.

A criança tem fome de bola, de água limpa, de árvores, de espaço, de riso, de

brincadeiras. Mas elas nada podem sozinhas. É dever da sociedade tratá-las como seres em formação e destinadas à alegria de existir. Para Gabriel García Márquez,

‘os seres humanos não nascem para sempre no dia em que suas mães os dão à luz. A vida os obriga outra vez – e muitas vezes – a parirem a si mesmos’..

Entre as abonadas e as abandonadas, o mesmo jugo de desencanto e cerceamento. Onde a criança ‘feliz, alegre, a cantar’? As marginalizadas deveriam ter direitos e não apenas deveres. E as abonadas que não se restrinjam a comer e consumir. Umas e outras merecem existir como crianças, não como adultos vencidos. Em algum lugar, deveriam um dia poder viver: livres, leves, soltas.


Thelma B. Oliveira é pediatra pioneira em Brasília.

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